10 de junho de 2011

Luiz Cosme: para um início de conversa



Não sei bem ao certo o que me traz a este recinto novamente. Acontece que o tempo que passei e passamos longe desse blog, que já me é tão querido, me fez refletir um tanto sobre o que eu vinha fazendo até aqui e decidir continuar esse trabalho que foi um pobre natimorto, ainda em sua gestação sofreu de dura morte. Mas acreditemos na ressurreição, especialmente na ressurreição de ideias. Contra todos meus trabalhos atrasados e provas vindouras, cá estou, tentando iniciar o pagamento de uma dívida de uns bons meses. Então, vayamos al diablo!

Creio que foi por volta do início do ano passado que eu chegava em casa extremamente realizado e fascinado com a expectativa de escutar aquele precioso CD que eu havia adquirido no Centro Municipal de Cultura. Se tratava de um volume de uma coleção (que, até onde tive conhecimento, não passou de seus primeiros volumes) realizada pela prefeitura (e aqui arrisco dizer que foi a mudança do grupo partidário no poder que provocou a interrupção do projeto) que se propôs a ser um "documentário" da música deste lugarejo tão amado. O presente volume era o primeiro a apresentar a música erudita, clássica ou acadêmica (todavia, como sabe-se, não há termo preciso para designar este mundo, igualmente impreciso quanto às suas fronteiras) dos compositores da nossa cidade. Composto de peças de câmara de Assuero Garritano, Araújo Vianna, Armando Albuquerque, João Schwartz Filho, Murillo Furtado, Radamés Gnattali e Luiz Cosme, o disco causou-me uma impressão arrebatadora, de um modo geral, mas foi especialmente acerca do senhor Cosme que fiquei interessado.
No disco constavam 6 peças do compositor: suas Três Manchas (para piano), de 1931; Mãe d'água canta,  do mesmo ano; Oração à Teiniaguá, de 1932; Brincando de Pegar, de 1943, em verdade uma transcrição para violino e piano da Dança do Fogareiro, uma das Três Manchas. Todo modo, apesar de meu encanto com as obras, custei a voltar novamente a elas. O fiz quando um dia, andando como quem nada quer pelos corredores da Biblioteca do Colégio Militar de Porto Alegre, me deparo com um exemplar da partitura para orquestra do "bailado-lenda" para orquestra Salamanca do Jarau, daquele nome que ainda permanecia em minha memória.  Foi com uma felicidade sem paralelos que copiei a obra e comecei a ler em casa, à frente do piano, tentando reconstruir na minha cabeça a sonoridade daquela música bastante peculiar, que há tanto tempo permanecia esquecida.

Eis que a temporada de 2011 da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre inicia sua programação com esta exata  Salamanca do Jarau, o que de fato encheu-me de emoção e expectativa, pela qual tomado gravei dentro das minhas possibilidades a obra e disponibilizei-a aqui para download. O entusiasmo me levou à pesquisa, e cheguei a dois brilhantes trabalhos do grande professor e compositor Fernando Mattos, além de teses de Carlos José Sell, Mauricio Starosta Neto e Alexandre Takahama. Meu intuito, agora, é iniciar uma série de postagens nos quais possamos conhecer melhor esse compositor ouvindo e analisando algumas de suas obras, à luz dos estudos acadêmicos já realizados. Por hoje, vamos a um brevíssimo histórico, baseado no tese de doutorado de Fernando Mattos.

Luiz Cosme, nascido em Porto Alegre, no Bairro Partenon, em 9 de março de 1908, esteve, em sua juventude imensamente envolvido e influenciado pelo movimento do modernismo musical e literário que surgia naquele início de século no Brasil, tendo a casa da Família Cosme sido ponto de encontro da fatia gaúcha do movimento, que incluía Augusto Meyer, Theodomiro Tostes, Armando Albuquerque e Radamés Gnattali. Dos três compositores gaúchos que se destacaram a nível nacional (Armando, Radamés e Cosme, todos alunos de Assuero Garritano), Luiz foi o único a concretizar plenamente uma música que aspira ao universal a partir do regional. Provavelmente influenciado pelas reflexões de Mario de Andrade acerca da noção de modernização tendo como base a tradição local, foi o primeiro a utilizar o folclore do Rio Grande do Sul no seu processo compositivo. O jovem Luiz começou a estudar violino com Oscar Simm e harmonia com Assuero Garritano no que se tornaria o nosso Depto. de Música da UFRGS. Tendo sido agraciado, em 1927, com uma bolsa para estudos no Conservatório de Cincinnati, (Ohio, EUA), estudou violino com Roberto Perutz e composição com Vladmir Bakaleinikov. Após uma breve passagem pela França, retorna a Porto Alegre, em 1930, dedicando-se ao ensino de música e, a partir de 1932, fixou-se no Rio de Janeiro, ainda capital nacional, onde trabalhou como violinista na Orquestra da Rádio Nacional e na Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Cosme irá se aproximar também do grupo Música Viva, encabeçado por Koellruetter, tendo algumas obras estreadas por eles. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Música e diretor da Discoteca da Academia e do Departamento Artístico da Associação dos Empregados Civis do Brasil. Produziu, ainda, três programas na Rádio MEC, destinados à democratização da música e divulgação da música de câmara, dada a raridade com que esse gênero é prestigiado especialmente no nosso país. Ao mesmo tempo, essa foi a fase mais produtiva de sua vida, e quando alcançou mais êxito e reconhecimento nacional e internacional com suas composições. Sua Salamanca do Jarau foi estreada pela a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sob a regência de Heitor Villa-Lobos, tendo sido bastante bem recebida pela crítica e pelos músicos. Conta-se que Villa teria, inclusive, proposto comprar os direitos autorais da Salamanca. Os últimos anos de Cosme foram de muita dor e sofrimento. A partir do final da década de 1940, uma doença não identificada (de algumas fontes, fala-se de esclerose em placas e outras em ataxia locomotora), que comprometeu seriamente sua mobilidade interrompeu sua atividade como compositor. A partir daí, dedicou-se à produção de numerosos ensaios e livros (8) sobre diversos temas ligados à música. Faleceu em casa. no 17 de julho de 1965.

Sofri bastante a fazer esse pequeno resumo, no qual, por tentar sintetizar, omiti informações essenciais e interessantes. Todavia, pretendo, através de nossos futuros estudos de algumas composições, além da   produção escrita teórica de Cosme, igualmente interessantíssima, ir retomando aspectos da sua bela biografia aqui perdidas pelo afã da brevidade. É muito bonito perceber em Cosme, muito mais que um músico e um compositor, uma vida inteiramente dedicada, um verdadeiro pensador do fazer musical, o que fica evidente na sua produção escrita. Sinceramente, meu propósito com esse pequeno trabalho que hoje inicio, é exclusivamente, dentro das minhas possibilidades, chamar a atenção a esse desvalorizado e esquecido músico, de uma bela história e importância subestimada. Peço, pois, às musas do Guaíba (que poético, não?) e do Pampa, compaixão e luz, a fim de cumprir minha missão, afinal, Cosme tem muito a nos dizer!

Um abraço, e deixo-vos com uma das Três Manchas, a Canção do Tio Barnabé  pelo pianista Maurício Starosta.

[Gerson Tadeu Astolfi Vivan Filho]

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Blog criado por Lucas Duarte da Silva - violoncelista - UFRGS. Conta com a colaboração de Camille Foletto - violinista - UFSM e de Gerson Tadeu - estudante de direito e violino - UFRGS.

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