9 de julho de 2011

VIOLINO: aspectos históricos e organológicos


Este post tem como objetivo analisar a evolução do violino em um período que compreende as primeiras evidências de instrumentos de arco, até 1599. Inclui, assim, a citação dos instrumentos que deram origem a sua configuração que conhecemos hoje. Além de caracterizá-lo fisicamente e estruturalmente, procurou-se identificar em que âmbito da música ele se infiltrava.

Saint Cecilia by Guido Reni, 1606.




CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Antes de fazermos qualquer objeção a respeito da origem e da história do instrumento, devemos, primeiramente, compreender o que vem a ser o violino e qual a sua função na música instrumental. Para isso, faremos uso da terminologia e da análise organológica do instrumento.
O termo “violino”, segundo Gill (1984) foi sempre usado na Itália. A partir de meados do século XVI, sua terminolgia tornou-se estável: “violino” era constante na Itália, “violin”, na Inglaterra, “violon”, na França, e “Violine” ou “Geige”, na Alemanha.
O violino é o membro soprano da família dos instrumentos de arco, segundo Sadie (1995, p. 997). Apesar de sua aparente simplicidade, o modelo atual, tal qual conhecemos hoje, compõe-se de mais de 70 peças diferentes. Seu corpo é constituído por uma caixa de ressonânciacuja parte de cima é denominada tampo e a de baixo, costas ou fundo. No tampo, existem duas aberturas, as denominadas “aberturas em f”: elas estabelecem o contato entre o ar que vibra no interior da caixa de ressonância e o ar exterior. A barra e a alma são dois outros elementos que desempenham um papel fundamental para o fortalecimento da caixa sonora. Possui quatro cordas (que podem ser de tripa, aço ou nylon), afinadas por quintas (HENRIQUE, 2004, p. 81-84).

Uma pequena história do violino

O violino não tem uma origem determinada. Através da revisão da literatura, percebe-se que os autores entram em um consenso a respeito das dificuldades em se atribuir sua origem exata. Segundo Winternitz (1979), “A questão da origem do violino é uma das maiores lacunas na história dos instrumentos musicais”. Além dessa dificuldade em determinar sua origem, “é somente por conjecturas, analogias e inferências que somos capazes de avançar na detecção do instrumento” (SCHLESINGER, 1910). As fontes utilizadas para esse estudo precisam basear-se na literatura e em arquivos escritos, porque a iconografia não basta para compreendermos o som que determinado instrumento produzia, por exemplo.
Segundo Henrique (2004), a história do violino está ligada ao pintor italiano Gaudenzio Ferrari (1480-1546), cujas obras remontam às primeiras representações do instrumento. A mais antiga conhecida ilustração da família completa do violino é de sua autoria (1535), segundo Stowell (2009), e está situada na cúpula de uma igreja, na Itália. Porém a figura mais antiga conhecida de um violino data de 1505-1508, segundo Dominic (1984). A partir dessas iconografias, podemos observar que o modelo mais próximo do violino atual é da primeira metade do século XVI.





Os instrumentos de cordas friccionadas mais importantes da época eram: a viela renascentista, a rebeca ou rabeca e a lira da braccio, segundo Henrique (2004). Nesses instrumentos, encontramos algumas características, tais como: a posição do instrumento, modo de pegar o arco, a afinação, e algumas afinidades estruturais. A combinação desses elementos foi crucial para o desenvolvimento do violino como o conhecemos.
Para Harnoncourt (1993) a viela é o mais importante dos instrumentos da Idade Média. Também conhecida como Fiddle, a viela encontrava-se na Europa em várias formas e famílias, com uma caixa de ressonância normalmente oval e plana, ou em forma de oito. Não possuía trastes, e o número de cordas variava de um até seis, às vezes incluindo cordas laterais. Apresentavam varias formas de afinação dispondo em 4ª, 5ª e 8ª entre si, segundo Kolneder (2003). “Como infelizmente não se conservou sequer um exemplar deste instrumento, não temos como formar uma idéia de sua sonoridade” (p. 16).
A rabeca era um instrumento encontrado em toda a Europa. Em forma de meia pêra, seu corpo era esculpido de uma só peça. Sem trastes, possuía de uma a três cordas, afinadas em quintas, segundo Kolneder (2003).
Uma forma especial da rabeca é a lyra da braccio, outro instrumento percursor do violino. É mais estreitamente relacionadas com o violino medieval, ou vielle. Ela tinha o ombro como posição de apoio, como podemos inferir de seu próprio nome (“da braccio” remete “ao braço”, em italiano). Fisicamente, ela era a mais semelhante ao violino atual, com execção do número de cordas, que era sete, onde duas cordas dessas complementavam a execução de acordes. Essas duas cordas eram afinadas em oitavas, sendo as outras cinco eram afinadas em quintas. Também possuía trastes, como podemos observar nas ilustrações de Michael Praetorius em “Sciagraphia” (Wolfenbüttel, 1620).


O arco do violino

Segundo Stowell (2009), quase seis séculos antes da evolução da família do violino, já se usava o arco. Sadie (1993) afirma que já no século X o arco, com sua função de friccionar cordas, era conhecido por todo o Islã e também no Império Bizantino.
O arco, no violino, serve para por as cordas em vibração. Até 1600, ele era convexo e tinnha uma curvatura contrária a que encontramos nos arcos atuais. Esse fato dava a possibilidade dos instrumentistas tocarem quase simultaneamente em três cordas, fazendo com que as notas soassem como acordes, segundo Henrique (2004). A crina era presa a uma vareta arqueada, que podia ser de madeira ou de bambu.



Os Luthiers
                                               Pintura de Edgar Bundy (1862-1922)

A Itália foi o berço das escolas de fabricantes de violino, no século XVI. É dessas escolas que serão os luthiers mais cérebres e cujos instrumentos de arco serão os mais procurados. As duas principais escolas italians, no século XVI, segundo Henrique (2004), serão a de Cremona e da Brescia. A escola de Cremona, porém, merece destaque: seu precursor foi Andrea Amati, cujo neto, Nicolo Amati, tornaria-se o mais importante luthier da família. Os Amati foram responsáveis pela definição da forma clássica do violino. O mais importante discípulo de Nicolo Amati foi Antonio Stradivari (1644-1737).

O violino e a música até 1599

Para Harnoncourt (1993), antes de 1500, à exceção da música de dança, não se compunha música essencialmente instrumental. Dessa forma, o intérprete que tocava violino (em suas configurações antigas citadas anteriormente) o usava improvisando-o ou executando peças de memória. Segundo Stowell (2009), o violino foi um instrumento acompanhador desde 1600 e era usado no norte da Europa para música executada na corte, geralmente para dança. Henrique (2004) nos chama a atenção para o fato de que, do século XIII ao século XVI, os instrumentos apenas acompanhavam a voz humana, com âmbitos sonoros coincidentes com o que se cantava. Nesse sentido, notamos que as mudanças no estilo musical ocasionavam, consequentemente, adaptações dos instrumentos a essas novas características. Assim, a evolução de um instrumento é determinada pela ação tanto de compositores, como de músicos e construtores, sendo que “A eficácia de um instrumento musical só pode ser medida pelo grau de satisfação que o seu som proporciona ao povo que o utiliza”. (WASCHMANN, 1969). Da mesma forma, o violino, o arco e a técnica de execução estavam adaptados, em cada época, à música que se fazia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após o estudo de algumas fontes bibliográficas sobre instrumentos e, mais especificamente sobre o violino, podemos inferir que todos os autores remontam o surgimento de nosso objeto de estudo a um passado obscuro, cheio de contradições a respeito de terminologias e aos instrumentos que o originaram. Desse modo, toda conclusão a respeito desses fatos deve conter a clareza de que é impossível determinar com precisão a origem desse instrumento. Porém, é com certeza que podemos concluir que esse instrumento foi, é, e continuará sendo por muitos anos um dos mais ricos e mais amplamente utilizados na Históra da Música.



-


REFERÊNCIAS

GILL, D. The Book of the Violin. Oxford: Phaidon Press Limited, 1984.

HARNONCOURT, N. O Diálogo Musical. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

HENRIQUE, L. L. Instrumentos Musicais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.

KOLNEDER, W. The Amadeus Book of the Violin. Cambridge: AMADEUS PRES LLC, 2003.

PRAETORIUS, M. Syntagma Musicum: De Organographia (2° vol.). Wolfenbüttel, 1620.

SADIE, S (Ed.). Dicionário Grove de música. Edição Concisa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

SCHLESINGER, K. The Precursors of the Violin Family. London: William Reeves, 1969.

STOWELL, R. The Early Violin and Viola - A Practical Guide. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

STRADIVARIUS VIOLINS. http://www.theviolinsite.com/violin_making/stradivarius.html.

TURNER, B. C. The Compact Violin: A complete guide to the violin and the great composers. São Paulo: Cia Melhoramentos de São Paulo, 1997.

WINTERNITZ, E. Musical Instruments and Their Symbolism in Western Art. New Haven: Yale University Press, 1979.

[Camille Foletto e Estêvan de Oliveira]

0 comentários:

Jovens Musicos

Blog criado por Lucas Duarte da Silva - violoncelista - UFRGS. Conta com a colaboração de Camille Foletto - violinista - UFSM e de Gerson Tadeu - estudante de direito e violino - UFRGS.

Arquivo